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13 de mai de 2017

Saiba quando o exercício pode se tornar um vício

Segundo um novo estudo, o vício em exercícios é um problema mental que afeta entre 0,3% e 0,5% da população mundial. (Foto: iStock/Getty Images)

A prática de atividade física frequentemente está associada a fatores benéficos, uma vida saudável e melhor. No entanto, quando o exercício muda de um hábito aparentemente saudável para um vício, ele pode se tornar extremamente prejudicial à saúde e o problema é que, como todo vício comportamental, os sinais e sintomas aparecem lentamente e são frequentemente ignorados.

Difícil de identificar

“Como um transtorno alimentar, um distúrbio de exercícios é um declive muito escorregadio. Ele geralmente começa com boas intenções: ficar em forma, perder alguns quilos, ter uma boa aparência no casamento, perder o peso depois de ter um bebê, treinar para um triatlo. Quando o comportamento torna-se compulsivo, ele domina e nunca é suficiente. É uma necessidade impulsionada de exercício. A necessidade de se exercitar intensamente e várias vezes ao dia torna-se mais importante do que qualquer outra coisa como amigos, trabalho, dormir e até comer “, disse Paula Quatromoni, professora associada e presidente do departamento de ciências da saúde na Universidade de Boston, nos Estados Unidos, à rede americana CNN.

Ainda segundo Paula, esse vício geralmente acompanha outras doenças mentais, como ansiedade ou transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

De acordo com informações da rede americana CNN, embora não seja considerado oficialmente um transtorno psiquiátrico pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) – principal guia para definir, classificar e diagnosticar distúrbios de saúde mental -, um estudo publicado recentemente no periódico científico British Medical Journal encoraja profissionais de saúde e reconhecerem e entenderem esse distúrbio e os riscos associados. 

O problema afeta aproximadamente 0,3% e 0,5% da população geral. Segundo Heather Hausenblas, professora de cinesiologia na universidade de Jacksonville, na Florida, e autora do estudo.

“É uma porcentagem pequena, mas se você pensar em um país inteiro, são centenas de milhares de pessoas que têm isso. Nós tendemos a pensar – com razão – no exercício como uma coisa realmente positiva que precisamos fazer, e a maioria de nós não se exercita o suficiente e não recebe os benefícios à saúde relacionados ao exercício. Mas, como com qualquer comportamento, podemos levá-lo ao extremo.”, disse Heather, à CNN.

Sintomas e consequências

E é aí que a atividade física se torna um problema. Os sinais e sintomas do vício em exercício incluem exercitar-se mesmo estando doente ou lesionado e ter sintomas de abstinência, como a ansiedade, quando você não pode se exercitar. “Não é a quantidade de exercício. Por exemplo, um atleta de elite que se lesiona, vai se afastar dos treinos até seu corpo se recuperar, enquanto alguém que é viciado em exercício não será capaz ou vai ter muita dificuldade para fazer isso.”, explicou Heather.

Os riscos para a saúde do vício do exercício variam de lesões por uso excessivo, desidratação e anemia até o comprometimento do sistema imunológico e morte, especialmente quando associado a um transtorno alimentar.

“Os sinais de alerta nem sempre são visíveis, certamente não a um profissional de saúde que não vê as conseqüências sociais do transtorno como a falta de relacionamentos interpessoais, solidão e isolamento. Como uma sociedade e como profissionais, não estamos acostumados a olhar para o exercício como “muito de uma coisa boa” de forma a afetar negativamente a sua saúde.”, disse Paula Quatromoni, da Universidade de Boston, à CNN.

Problema real

Abby Heugel, de 35 anos, escritora, é viciada em exercícios. Ela precisava suar. Precisava sentir seu coração disparado e seus músculos esticarem, contraírem e queimarem. Ela tinha que estar no controle e… se exercitar. A depressão, o transtorno obsessivo compulsivo e o vício em exercícios, a deixaram abaixo do peso por uma década. Embora faça terapia, ela afirma que ainda luta diariamente contra o vício.

“Fisicamente, eu sinto que vou sair da minha pele se eu não me exercitar por algumas horas. Mentalmente, é tortura.”, disse à CNN.

Segundo ela, muitas pessoas parecem não entender como a atividade física pode evoluir de um simples hábito, para um perigoso vício. E é essa realidade que ela quer mudar. “Eu definiria como parte da minha ansiedade e TOC. Eu não me exercito excessivamente porque eu acho que estou gorda e preciso perder peso. Na verdade, é o oposto.”

Abby conta ainda que faz anos que tira fotos, porque não está feliz com a sua aparência. “Por que não comer mais? De fato, eu como mais do que uma pessoa normal, mas é tudo muito controlado e obsessivo e não é o suficiente para sobrepor o excesso de exercício.

Então por que simplesmente não descansar? Porque como álcool e drogas, é um vício. É o que eu faço quando estou ansiosa. Faz parte da minha rotina. É uma compulsão.

Abby

Para Abby, os sintomas do vício, bem como o TOC e a depressão, tornaram-se mais aparentes por volta de seus 20 anos de idade. Em 2015, ela precisou de duas transfusões de sangue porque estava anêmica devido ao excesso de exercício, disse ela. Foi quando seu médico recomendou que ela procurasse um terapeuta.

Hoje, a escritora não é mais anêmica e freqüentemente visita seu terapeuta. “É uma luta diária ou por hora, e, combinada com a depressão, é realmente difícil. Eu sou um indivíduo altamente funcional no papel, tenho um ótimo trabalho, uma casa, as pessoas pensam que eu sou engraçada… Mas a maioria não sabe o que acontece nos bastidores”. disse Abby.

Vício primário e secundário

Quando o exercício é levado ao extremo, ele pode se manifestar como um vício secundário a um transtorno alimentar, no qual o indivíduo está se exercitando apenas para controlar ou manter seu peso. Ou pode se manifestar como um vício primário, no qual não há patologia subjacente – caso de Abby.

Embora os homens e as mulheres corram o mesmo risco para o vício em exercício, o primário parece ser mais frequentemente nos homens e o secundário nas mulheres.

“A pesquisa tem sido lenta, mas está crescendo, mostrando claramente que há grupos de indivíduos que se envolvem demais em atividade física ao ponto de classificá-la como um vício.”, disse Heather.

Equilíbrio

Embora o exercício tenha se transformado em um transtorno compulsivo para Abby, especialistas ressaltam que, na maioria das vezes, o exercício tem um impacto positivo na saúde mental e física das pessoas. Uma rotina regular de exercícios pode até ser incorporada ao tratamento contínuo para certas condições de saúde mental, disse Brendan Kelly, cofundadora do Well Being, um serviço de terapia ambulatorial em Grand Rapids, Michigan (EUA), e terapeuta de Abby.

Terapia é essencial

Mas, para aqueles com dependência de exercício, o objetivo da terapia é ajudar os pacientes a reconhecer seu comportamento viciante e reduzir as rotinas de exercício extremo. Há pouca pesquisa disponível sobre o tratamento do vício do exercício, mas o estudo do BMJ sugere que a terapia cognitivo-comportamental pode ser uma boa alternativa, como acontece com outros vícios comportamentais.

“O que eu queria que as pessoas compreendessem é que não se trata de vaidade. Eu odeio minha aparência e como eu sou, mas é realmente uma doença, uma combinação de várias coisas que culminam em meu comportamento, e é uma coisa real, não uma desculpa. É complicado, e não espero que alguém que não sofra dele compreenda, apenas que se compadeça da luta.”, finaliza Abby.

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