Dilma se torna uma investigada no dia em que divulga sua carta patética | ilha FM - Paulo Afonso
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17 de ago de 2016

Dilma se torna uma investigada no dia em que divulga sua carta patética

Com ela, outras seis pessoas estarão sob investigação naquele que é um dos crimes mais graves de um homem de estado: obstrução da investigação — e, pois, da Justiça (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Dilma Rousseff, a presidente afastada, não vive, definitivamente uma boa jornada. No dia em que ela divulga uma patética carta aos senadores e, como ela disse, “ao povo brasileiro”, torna-se, pela primeira vez, formalmente investigada. E a suspeita é ter cometido um crime que, se apurado e resultar em condenação, implica a perda do mandato. Antes disso, no entanto, denunciada ou não, condenada ou absolvida no crime ora investigado, o seu mandato irá para o ralo.

O ministro Teori Zavascki, relator do petrolão no STF, autorizou a abertura de inquérito contra a Afastada sob a suspeita de obstrução das investigações da Lava Jato — e, por consequência, da Justiça. Com ela, outras seis pessoas serão investigadas: o ex-presidente Lula; o ex-ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), hoje advogado de Dilma; o também ex-ministro Aloizio Mercadante (Educação); Francisco Falcão, presidente do Superior Tribunal de Justiça; Marcelo Navarro, ministro dessa corte, e Delcídio do Amaral, senador cassado.

Qual é o ponto? Com base, principalmente, na delação premiada de Delcídio, a Procuradoria-Geral da República considerou haver elementos para investigar o grupo por tentativa de obtruir a Lava Jato. O inquérito correrá em sigilo.

Vamos ver
Por que Navarro e Falcão serão investigados? Segundo Delcídio, o primeiro foi nomeado para o STJ com o compromisso de contribuir para tirar da cadeia presos da operação. E Falcão? Ele teria ciência de tudo, assim como José Eduardo Cardozo, então ministro da Justiça.

Nessa perspectiva, pois, Dilma teria tentado interferir na composição do Judiciário para alterar o curso da investigação. Mas sua ação não teria se esgotado aí. A escolha de Lula para ministro-chefe da Casa Civil — ele foi nomeado, mas impedido de tomar posse em razão de liminar concedida por Gilmar Mendes — buscaria tirá-lo da alçada de Sergio Moro, ao lhe conferir foro especial.

Gravações que vieram a público deixaram isso muito claro, mas a mais contundente delas — aquela em que Dilma anuncia que vai antecipar ao chefão petista o termo de posse que o impediria de ser eventualmente preso — não poderá ser usada em juízo porque Teori considerou que foi obtida de forma ilegal.

Lula, obviamente, é investigado nesse caso por participação na operação. Telefonemas seus que vieram a público evidenciam que ele esperava ser ministro, para, como disse, pôr o Ministério Público no seu devido lugar. Chegou a dizer que era a única pessoa que poderia fazê-lo.

E Mercadante? Bem, esse teve, quero crer, a mais explícita conversa de todos nesse caso. Num bate-papo com um assessor de Delcídio, José Eduardo Marzagão, ele trata explicitamente da ajuda financeira à família do então senador, que estava preso, desde que esse não firmasse um acordo de delação premiada.

Não que alguém tivesse caído no papo furado da carta absurda de Dilma, mas convenham: o evento demonstra a confiança que ela poderia inspirar hoje na política.

Os advogados de todos os investigados negam o cometimento de crimes. Que se note: um inquérito ainda é uma fase prévia. O que Teori fez foi apenas considerar que há elementos consistentes para que se dê continuidade à investigação. Não se trata ainda de reconhecimento de culpa.

Mas é evidente que a situação de todos eles é mais desconfortável hoje do que ontem.

E, não custa lembrar, a mãe de todas as delações ainda está por acontecer: a da Odebrecht. Sim, desconfia-se que seu efeito pode ser devastador para muitos políticos graúdos, mas Dilma integra o grupo.

E que se note para arremate: caixa dois é coisa séria, sim, mas a investigação de agora tem a ver com o mais grave dos crimes que um presidente pode cometer: obstrução da investigação — e, por consequência, da Justiça.


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